sábado, 26 de dezembro de 2009

Manifesto contra o Ser

"This summer I swam in the ocean
And I swam in a swimming pool
Salt my wounds, chlorine my eyes
I'm a self-destructive fool
a self-destructive fool"

- Loudon Wainwright III



Estou cansado de sua pompa prolixa e pedante! Seu orgulho exacerbado e filosofias mirabolantes e fabulosas, que não passam de teorias esdrúxulas para servir de auto afirmação patética e para legitimar seu fracasso como pessoa. Quanto ao seu desgosto imaturo pela sociedade, saiba que é recíproco. Seus hábitos grotescos e vícios ridículos são um cortejo de babaquices adolescentes onde reina a auto indulgência hipócrita. Tudo o que você faz é transformar sua preguiça insolente numa justificativa para sua vida de derrotado e infeliz. Suas mentiras são mal elaboradas, sua malandragem é estúpida e sua inteligência é menor do que você faz aparentar. É um misógino e um delinquente, além de tudo é criminoso. Que pague logo por seus delitos infantis antes que arrisque a segurança de uma pessoa respeitosa, pois já tivemos o suficiente de seus insultos inconsequentes e perfídias irritantes. Seu mau gosto é fascinante, ainda mais por ser ostentado com tanta opulência e tola crença em seus interesses refinados. É inapto à convivência e a prova cabal deste veredito pode ser vista em sua própria figura. É mentiroso, cruel, estúpido e viciado. Seus elogios da corrupção apelam somente aos celerados e pervertidos da pior espécie. Seu cotidiano torpe é um conjunto de acontecimentos entediantes e triviais, que só são falsamente embelezados pelo esplendor de sua embriaguez e a fuga desesperada de uma realidade onde você é fraco demais para viver. Este é o motivo de todas suas fantasias irracionais e pseudo filosofias alucinadas. Não é surpresa que sua existência se dê de forma tão desprezível e solitária, qualquer pessoa com o mínimo de respeito por si mesma e por qualquer outro, ao contrário de você, não pode deixar de se sentir ultrajada pela sua presença desagradável. Este é só o prelúdio de uma grande lista de fatores que o tornam o que é: a manifestação repugnante do delírio de superioridade preguiçoso e limitado. Um detalhe ridículo cuja menção se faz interessante é a sua teimosia tão covarde que o impede que comita o rito final dos fracassados. A execução por lei simplesmente lhe daria o conforto de não ter nem mesmo a responsabilidade de lidar como um homem com o fardo que é a própria sentença.

"How can I let this slip through my suspicious mind?
I do not care about your opinions anymore.
They mean nothing to me.
A reckless past catching up to me... and for what?"

- Fooling the Weak, Make a Change... Kill Yourself (II, 2007)

segunda-feira, 21 de dezembro de 2009

O Vigário

"Cause I need to watch things die from a distance
Vicariously I live while the whole world dies
You all need it too, don't lie"

- Tool



Em minha torre de pedra observo tudo. O espetáculo babélico da ordem primal. Meus olhos torpes são órgãos copuladores, causam espasmos lúbricos quando estimulados pelo cenário lúgubre do matadouro. A crueza da carne, exposta e mutilada, ejaculando sangue e merda, as massas viscerais disformes pulsando ao som do desespero, ecos abissais da dor. O pus blenorrágico escorre sobre a pele alva e lasciva da vítima. O som de um disparo, a certeza de um cadáver, o triturar lento dos ossos, o licor emético da podridão, o sangue que escorre de maneira indulgente, maculando o mundo em seu vício de se espalhar, fluindo e criando o oceano vermelho que inunda esta terra santa abandonada. O prazer crapuloso do voyeur que assiste e aprende, gosta e goza com o êxtase maldito da tragédia. Elixir sensorial e sensual que é a gênese de todo prazer. Delírios sádicos e intensões calamitosas permeiam meus desejos mais vorazes. Mas assisto pacientemente, espero, me regojizo na queda eminente de toda essa raça. Admiro a aptidão do assassino e sua astúcia letal, o poder destrutivo do fogo e do aço, a opressão despótica sobre a presa e o controle soberano e edílico sobre a vida. A insanidade caótica e cínica do psicopata é digna de sua canonização na catedral da dor. A exatidão cartesiana nos designios de um torturador celerado e cruel e a precisão fria do executor são os atributos que constituem os valores nos códigos do desregramento a que são fiéis nossos grandiosos vilões. Campeões celerados e pérfidos que são protagonistas das fábulas mais fascinantes que os homens ingênuos temem, mas desejam. Não há um véu de aparências, a verdade é exposta como um cadáver eviscerado. A hecatombe humana é uma apresentação sem fim, mas nunca é desinteressante mesmo para aqueles cujos gostos são os mais refinados e implacáveis. Reduzo minhas presas a seu sucubato servil. O furor do vício eclesiástico e devasso estimula a cólera lúbrica dos meus golpes imperiosos. A deliciosa volúpia do assassinato é uma maquinação constante na fábrica de atrocidades que é o cérebro entorpecido do criminoso santificado. O fiel sempre observará com deleite o perpétuo desfile de monstruosidades e criaturas oniródinas em sua ruína mais imunda, o membro fantasma de aberrações mutiladas acaricia o ventre alvo e puro da virgem desecrada. Sou o vigário, mestre da masmorra e observador rapineiro. Meu cárcere é o obelisco de rocha e metal em que confabulo com languidez. O vício engendra a doença da alma. A náusea provocada pelo miasma fétido da podridão humana inflama o ódio e desafia a sanidade. Deve-se abraçar todos estes prazeres atrozes com ávida determinação, pois o crime é por demais grandioso para ser simplesmente admirado. Uma gargalhada doentia anuncia o despertar do algoz. Torrentes rubras escoarão pelas vias de pedra ao comando do tirano. Que a carnificina comece.


"Pois, diga-se de passagem, embora o crime não possua o tipo de delicadeza encontrado na virtude, não é ele sempre mais sublime? Não tem um carater constante de grandeza e sublimidade que prevalece e sempre prevalecerá sobre os encantos monótonos da virtude? Quereis falar-nos da utilidade de um ou de outra? Será que nos cabe sondar as leis da natureza, ou decidir se, sendo-lhe o vício tão necessário como a virtude, ela talvez nos inspire de modo igual um pendor para um ou para outra, em razão de suas necessidades próprias?"
- Marquês de Sade

sexta-feira, 13 de novembro de 2009

Siegfriedblut




Carregamos este fardo em nosso sangue. É a dádiva do herói em seu sentido puro, profundamente trágico e moralmente neutro. A mitologia nórdica e o ciclo de óperas Der Ring des Nibelungen são um monumental retrato deste espírito que era comum entre o povo bárbaro e transcendeu sobre a era cristã em algumas localidades como a Escandinávia, onde a relação dos escandinavos com sua terra natal e suas raízes pagãs ainda constitui um vínculo forte com um passado no qual os homens não eram subjugados por suas próprias ideologias e dogmas na figura fantasmagórica de um poder onipotente supremo. Estes indivíduos tinham maior liberdade, mas não num sentido ingênuo e idealista, a liberdade era fruto de sua sabedoria, que por costume passou a ser contada entre as pessoas, para seus descendentes e assim por diante. Esse compêndio de estórias poeticamente ricas, com um sentimento épico imaculado de dogmas morais, veio a formar os panteões, divindades e criaturas mágicas que, interagindo com os homens e com os mortos, retratavam as diferentes facetas de visões maduras dos sábios, modeladas pela melodia dos bardos e ardendo com a coragem dos bravos. A coragem era admitida pela teoria dos humores como comportamento análogo à quantidade de sangue que circulava no corpo da vítima. Esta coragem pode ser também atribuida a este conhecimento bárbaro modelando a figura de Siegfried. O grande herói corrompido, uma espécie de ser amaldiçoado pelo destino, neste caso sendo fruto de um adultério incestuoso (assim como Mordred nas lendas arthurianas). Mas o seu destino não foi somente mórbido, foi glorioso! Siegfried era a esperança de Wotan para evitar a precipitação do Götterdammerung, quando Valhalla seria incinerada pelas chamas do esquecimento. Siegfried sempre foi astuto, mas não havia sido grandioso. Era impaciente com Mime, o anão que o criara e que secretamente sabia de toda a história de Siegfried e não o contara. Foi quando o anão lhe contou a história do poderoso dragão Fafner que possuía o Anel de Nibelungen e reforjou a espada Nothung que conseguira com a mãe de Siegfried para fazer com que este matasse o dragão e Mime pudesse se apossar do Anel. Logo que a espada ficou pronta, o herói partiu a bigorna ao meio com um golpe preciso, demonstração de que aquela era a arma apropriada para a batalha. O dragão era o poder absoluto na forma fantástica de um monstro terrível, mas Siegfrieg representava a frieza e a temerariedade daquele que por se reconhecer como superior, se considera conhecedor da vida e poderia arriscar-se sem fraquejar em frente ao mais grandioso desafio. O golpe fatal penetrou a pele escamosa do dragão e derramou uma torrente do seu sangue sobre Siegfried. Este viu que o sangue lhe cobria os dedos e os queimava e instintivamente os colocou na boca. Foi quando pôde sentir. A consciência plena e instantânea induzida por um elixir maravilhoso: o próprio sangue, a sabedoria do dragão foi assimilada por ele numa revelação ritualística, o que o tornou tão astuto que possuiu o Anel e descobriu intuitiva e logicamente quais eram os verdadeiros planos de Mime, que o criou e treinou como um simples instrumento para conseguir o ídolo de toda sua obsessão. Aí está a vontade peçonhenta que mente e manipula para conseguir o que quer. Mas o herói consegue distinguir o falso do real e vê através das máscaras das cobras. Siegdried assassinou Mime rapidamente. Seus objetivos eram maiores. Ele se tornara agora plenamente consciente de seu poder e de como poderia usá-lo desafiando a todo tipo de lei, a tradição, a promessa e as divindades! Siegfried foi um ser livre de medos e de laços, o que o tornava alguém que era senhor de sua própria liberdade, mas ele não escapou das influências das próprias paixões infladas pela vontade ardente e pelo desejo incontrolado. Além disso, nasceu maldito, ele tinha o espírito profundamente altivo e a frieza emocional dos sábios. Teve uma morte trágica, mas com ela, a destruição materializada pelas lâminas de homens traiçoeiros que o acertaram em seu único ponto vulnerável: seu coração. O sangue do dragão supostamente não cobriu este ponto de suas costas pois uma folha havia pousado sobre sua pele pouco antes do sangue escorrer pelo seu corpo. Uma simples folha, uma fatalidade meramente mecânica e causal, ironia mórbida do acaso, ou alguma trama superior ao entendimento terreno? Eis o ponto onde a especulação filosófica racional se parte como numa encruzilhada nas expedições mentais pela filosofia e pela fantasia. A estrada se divide em duas: a do que é estritamente racional e materialista, portanto vazio de qualquer valor e com um fim fatalmente visível num precipício; ou a estrada nebulosa, entorpecida pelas brumas que oprimem a atmosfera com o mistério. O desconhecido é o devaneio, a arte, o delírio, a loucura, é também conhecimento! Profundamente fenomenológico e rico em experiências e idéias extravagantes, pensamentos quiméricos mais aterrorizantes que o dragão Fafner e a genialidade da poesia que expressa em si uma verdade sobre o universo, sobre a vida como um todo. Mas essa experiência, por ser subjetiva e individual, não pode ser garantida por um método de interpretação racional e niilista, torna-se um nada desprovido de existência e reduzido ao esquecimento. Valhalla queimou com a queda de Siegfried. Este mesmo quebrou a lança de Odin, mas antigo dos deuses. É um fim onde não há uma lição de moral manipulada para distinguir o que deve ser considerado certo do errado de maneira absoluta. É um fim onde a destruição dá um fim a tudo, pois é de uma sabedoria não só racionalista que a morte abate tudo que existe. O fim é garantido para tudo que ainda não teve um. Nem homens nem deses permanecem no mundo, não são nem nunca foram matéria em nossa dimensão. Eles são os sonhos, as idéias, as histórias antigas que são contadas sem pretensão de influência, mas que instigam quem as conhecem a deixar sua mente se aventurar neste épico de uma forma não comovida pelo drama, mas inspirada pelo espírito da tragédia.



Esta é uma idéia poderosa quando cai nas mãos dos que não são mais os anciãos bárbaros de um passado distante, mas astutos líderes que transformam a tragédia mitológica numa ideologia nacionalista, provocando todo um povo, hipnotizado pela sua própria ilusão de grandeza num gesto desesperado para se livrar da depressão de uma era de miséria, a entregar suas mentes a um governo totalitário e expansionista. A queda do Terceiro Reich não põe um fim a essa cruzada megalomaníaca pela dominação e pelo poder absoluto encarnada numa figura que nossa cultura adora odiar, Hitler. Este foi um homem, a encarnação de um indivíduo que retirou um povo decadente na baixeza podre da sub-existência. Mas a queda deste não significa o fim do fenômeno, repito. Ele não foi o primeiro e não o último. Porque esses homens não são indivíduos. Eles são grandes figuras construídas como fantoches para inspirar num povo um sentimento completamente devoto aos interesses de uma elite que sempre manipula o fantoche enquanto camuflada pelas sombras. Essas elites não se dissolveram, elas encontraram o ambiente perfeito para estenderem como nunca antes os seus tentáculos pelo mundo capitalista. A criação de ídolos populares adequados às expectativas e ideais (frutos da influência ideológica das próprias elites) é uma estratégia ainda utilizada pelos predadores que dominam a civilização em alcateias extremamente estruturadas. Os verdadeiros líderes ficam nas sombras. Quem representa são os fantoches, manipulado pelo interesse mais primitivo do homem: poder. O Anel de Nibelungen de nossa era não passa de papel. Dinheiro. Vulgar, frágil, sem qualquer valor, mas capaz de comprar qualquer maravilha. Quanto mais avança o sistema, mais sem importância se torna o dinheiro em si, mas o crédito, a opressão, a escravidão e a dominação, o exercício de um poder absoluto que nega qualquer construção social de Estado de Direito e é ligada a essa obsessão primitiva já retratada nas mais antigas histórias. A ganância de Mime, que criou e manipulou Siegfried desde seu nascimento, mas não contava com sua voraz superioridade. O sangue de dragão do herói não é algo para ser modelado por qualquer axioma ascético e utilizado para satisfazer os interesses de um Demiurgo material. Mime nunca ensinou o medo a Siegfried, que sempre alimentou uma curiosidade sobre este sentimento que era tão misterioso para ele. A poção é o símbolo da destruição. Destino inevitável de tudo que existe. Aqueles que a ingerem podem fazer duas escolhas: ter a audácia de percorrer as neblinas do caminho do lobo tendo o conhecimento de que as brumas também o levarão ao precipício... ou se arrastar por uma longa existência numa densa ilusão forjada da pureza de um delírio. Servindo finalmente de sacrifício para alimentar a máquina de um Valhalla corrompido.

"Woher ich stamme,
rate mir noch;
weise ja scheinst du,
Wilder, im Sterben:
rat' es nach meinem Namen: -
Siegfried bin ich genannt. "

(Siegfried, Der Ring des Nibelungen; Richard Wagner)

terça-feira, 3 de novembro de 2009

Homo homine lvpvs



O palco está pronto para a tragédia primitiva: A traição, o ódio, a ganância, a ira, a vingança, a loucura... todas as facetas primordiais do homem. Seus pecados naturais, sua inclinação viciosa para o infinito. Uma fome de destruição, a cólera crepita no coração negro daqueles amaldiçoados por seus atos. A necessidade crescente que gesta o predador cruel não se sacia perante e reduzida a si mesma. É preciso expandir, conquistar, dominar e consumir. Como Fogo do Inferno deve se alastrar pelo universo e reduzí-lo ao zero. A não existência perfeita. Para atingir este fim sinistro, nenhum obstáculo é intransponível. Sua vontade aristocrática se impõe facilmente sobre os cordeiros e outras presas fáceis. Suas vidas limitadas não são páreos para seu conhecimento voraz. Todas as finas cordas metálicas arranjadas para manipular as marionetes vazias são puxadas com maestria. O contato com outros predadores é sempre intenso. A hostilidade é constante, mas atenuada pela máscara orgulhosa do calculista. Talvez consiga daqui um aliado, um inimigo, uma presa ou uma cópula. Às vezes, os papéis se confundem. É preciso dominar despoticamente aqueles mais fracos do que si. A selvageria do cenário urbano com seus prédios e construções decadentes, neons e manadas de bufalos motorizados, é mais próxima da natureza animal do que uma presa fácil pode imaginar sobre o mundo que a rodeia. O liberalismo livre e tirânico proporciona a catarse do indivíduo em sua condição essencial. Sozinho e pronto para morrer. Servir e obedecer e alimentar a máquina com suas cascas vazias, nem mesmo os fantasmas de seus egos aparecem vagamente no éter. O crime institucionalizado e alienante controlado por figuras decadentes e mesquinhas, predadores gananciosos demais, glutões malditos banqueteando-se na liturgia do poder. Mecanismos de opressão e exploração são evidentes para aqueles que não foram infectados pelas ideologias e valores morais que troçam da liberdade.
O lupino humano sempre espreita pela sombra ou na nevasca, esperando a oportunidade para desferir a investida fatal contra seu semelhante, não obstante os apelos metafísicos de profetas escravos. Mas é o momento propício, o Universo se expande como uma refeição infinita de entranhas. O sangue vermelho é negro, exceto quandro brilha ao luar pálido e insistente. A esfera celeste branca oprime a vontade e atormenta os sonhos. As feras devem caçar. A temporada está aberta. Os disformes e pontiagudos dentes dos lobos retalharão suas presas. A lua ilumina a carnificina como o olho de um demônio. O terceiro olho de um louco é a lua. Saber demais, querer demais. Não há mais tempo para maquinações, o espetáculo deve começar de uma vez por todas. Atores não fingirão, as máscaras cairão. As fantasias serão esmagadas pelo punho de ferro indiferente da verdade. Ao fim deste espetáculo, as cortinas não fecharão, nem as feridas profundas em sua alma e em seu corpo. A escuridão abissal de suas pálpebras encerrará sua patética existência. Devorarei em seu último suspiro o miasma fétido do seu Ser. A lua é impaciente, os deuses estão mortos. Gargalho com escárnio do poder que me inspira. Um poder mais forte que a vontade: maldição! Sangue negro e rançoso escorrerá pelas calçadas e canais nas cidades da civilização, império brutal de Fenrir.


"Get it up, get it down til you hit the ground,
Get a rude attitude, turn the world around,
Shall we see, shall we disagree,
All In The Name of Tragedy"

- Lemmy Kilmister


domingo, 1 de novembro de 2009

Olhos Vítreos

És uma Dama sedutora
De olhar frio e distante
Fragmento de uma visão aterradora
De sonhos febris
Minha sanidade vacilante e infeliz

Pele alva, muito pálida
Monumento cheio de loucura
Ferve meu sangue
E indiferentemente, me tortura

Uma presença desafiadora
Um jogo perigoso
E um ideal perdido
Alimentam a tentação controladora

Somos predadores por natureza
Os pecados são armas inatas
Seus falsos vícios são virtudes
Sua astúcia rivaliza a minha, mordaz

Sonhos sádicos de dominação
A vontade de lhe derrotar
Consumir, possuir
Alimentam a chama de minha paixão:
maldita

Fora de meu alcance
Conhece cada nuance
De minha idealizada
Musa decapitada

Hiperbórea Valquíria guerreira
O conforto ascético e ansiado
Ilusório numa vida sem honra
De um espírito por si mesmo envenenado

A tensão frágil da mentira
Não suportará a minha ira
Basta! Devo decidir:
Sacrifico a mim ou a ti?

Não é um grande dilema.

"It's a wicked game to play..."
- Chris Isaak


sábado, 31 de outubro de 2009

O fleuma incandescente

Entregou-se há muito tempo
A uma postura fria
Fartou-se logo
Da jornada prosaica e inócua da vida

Encontrou a linhagem de uma classe dominante
Não em seu sangue, mas no pensamento
Uma aristocrática superioridade
Compartilhada por opressores despóticos

Sentia-se um rei misturado à podridão
Dos escravos miseráveis e doentes
Maculado com a merda e a estupidez
Daqueles que servem a um mestre ilusório

Fez-se frio e indiferente ao miasma acre
Que brotava daqueles cérebros cancrulentos
Mas não podia mais suportar o cortiço imundo
Daqueles que deveriam estar o servindo

Como outros imperadores solitários que calculam friamente
Sua ascenção ao poder de forma lasciva e cruel
Absteve-se da vida vazia e limitada dos sans culottes subservientes
E entregou-se resolutamente à natureza de predador

Mas seus humores doentes, infectados
Pela praga causal da exposição ao submundo
Lhe inflingiram um castigo terrível
O desprezo pela própria existência anônima
O fez atirar-se a um oceano estático

Pântano lodoso, negro como sua própria bile
A estupefação dos vícios sensoriais
E o vôo de Ícaro sob a luz da Revelação
O fizeram mergulhar pesadamente
Nas águas tenebrosas da loucura
Inerente a seu espírito anômalo

Quando não fuma, bebe
Entrega-se facilmente às tentações
Mundanas e ilusoriamente transcendentais
Deu um golpe em seu próprio domínio
E escravizou a própria mente

Revoltado com a condição decadente de
um anjo maldito caindo de um paraíso perdido
e artificial
Devotou-se cruelmente à calmaria calculista dos líderes
Bárbaros do passado

Ainda em meio à vulgar existência fragmentária
Ele espera, contendo um turbilhão de cólera
Preparando suas presas para um abate voraz
Quando o líder nato troçar dos falsários
E lhes impuser um trágico fim, consumido pelo fogo da ira.





quarta-feira, 21 de outubro de 2009

Delírios coléricos




"Nous avons psychologisé comme les fous, qui augmentent leur folie en s’efforçant de la comprendre."
- Charles Baudelaire


terça-feira, 20 de outubro de 2009

Olhos Profanos

"That is not dead which can eternal lie
And with strange aeons even death may die"
- H. P. Lovecraft




Contemplo o mundo em excesso de existência. Nada, simples como uma cor, contém a si mesmo e é completo. As cores parasitam umas às outras, de forma que nunca contemplo o céu livre de suas infecções em padrões psicodélicos. Pulsando, piscando, morrendo e matando em velocidade monocromática. Um espetáculo indescritível de luzes fantasmas que coexistem com o abismo negro de minhas pálpebras. Algum desarranjo das células cônicas, talvez um sintoma de catarata prematura. Química anômala induzida por substâncias invasoras e corrosivas que alteram a percepção do mundo. Tudo isto interpretado pela lógica das idéias quiméricas, as quais este insone onirismo me inflinge, e assim infectado de pesadelos terríveis e fractais etéreas infinitas. Desafiam as leis da natureza e se tornam um risco à razão. Linhas sem fim, voláteis: deslizam fritando em minha mente e a imagem é uma mera ilusão. Pode um homem confiar nestes olhos profanos? Como no conto, o homem contempla a beatitude do sol e não podendo suportar tal intensidade luminosa, é cegado pelo esplendor da existência completa. Mas ele luta, esforça-se e supera a cegueira inicial, alçando sua consciência a uma nova interpretação, mais perfeita, evidente e restrita, mas profundamente rica. A visão panorâmica da paisagem sob as luzes policromáticas e aparentemente vivas revela o lado que apesar de recheado com ilusões psicodélicas extasiantes é em si verdadeira mente sombrio. Escuro como noites de assassinato, lá está o abismo presente e constante na mente inebriada do romântico comedor de ópio. Delírios febris paranóicos e bruxuleantes açoitam a consciência fragmentada com medos irracionais e abstrações incognoscíveis. Mitologia lisérgica pagã vive e pulsa soberana dividindo a consciência em principados autocráticos. A destruição que traz a devastação completa da sanidade acontece acompanhada da marcha triunfal de um eu interior e alienígena que se rebelou contra o ego. Anjo caído que abandona o paraíso perdido da razão. O arquiteto cai, morto. Ourreason decadente, se suicida impotente e expele os fluídos da podridão pelos buracos e feridas de seu corpo imaculado. Sangue e merda alimentam as quimeras que violentam e queimam a minha consciência. O Universo incabível infinito e limitado dentro do meu crânio entrou em colapso. Buracos negros supermassivos, assassinos da existência, engolem vorazmente as lembranças e os sentimentos, o estado fundamental é dilacerado. A Queda é sutilmente assimilada e meu espírito se desfaz no éter. Restam estes olhos profanos que ornamentam a mortalha tísica como rubis fleumáticos sem brilho. Injetados de sangue, por trás de lentes escuras, eles continuam a observar silenciosamente. Enviam, pateticamente, as imagens distorcidas de um mundo vil para este vácuo onde nada pode existir. Uma estátua vazia, sem espírito e sem razão, que já viveu um dia.



"E Fuzon convocou então
Os filhos restantes de Urizen
E a terra oscilante abandonaram
Denominaram-na Egito & se foram.

E vastas Vagas salgadas o globo envolveu."
- William Blake (O Livro de Urizen, 1794)


sábado, 10 de outubro de 2009

La bile noire

"Vai prum convento. Ou preferes ser geratriz de pecadores? Eu também sou razoavelmente virtuoso. Ainda assim, posso acusar a mim mesmo de tais coisas que talvez fosse melhor minha mãe não me ter dado à luz. Sou arrogante, vingativo, ambicioso; com mais crimes na consciência do que pensamentos para concebê-los, imaginação para desenvolvê-los, tempo para executá-los. Que fazem indivíduos como eu rastejando entre o céu e a terra? Somos todos rematados canalhas, todos! Não acredite em nenhum de nós."
- Hamlet



(Magritte, O prazer)

Um desequilíbrio químico, mal passageiro. O excesso de bile negra confunde a imaginação delirante do enfermo e faz emergir, como a carcaça de um encouraçado apodrecido das profundezas negras de um oceano abissal, a demência predatória. O comportamento se torna hostil, a pele fica pálida e o corpo adoece. Um ódio antinatural queima as entranhas e ofende os familiares. A astúcia aguçada pela paranóia latente e os sentidos abalados, mas constantes. O miasma fétido da decadência espiritual se mistura ao odor da fumaça constante e faz da mente um laboratório sádico de alucinações violentas e desejos infames, mil teatros de tragédias tenebrosas se esboçam num sorriso cruel. Tudo alimenta a pira selvagem que ordena possuir, consumir, dominar, oprimir. Afirmar a vontade autocrática soberana de um monarca solitário confinado nas masmorras de sua própria patologia. Não vejo pessoas, vejo presas. As maquinações criminosas produzem o estupor lamacento da maldição eterna, a maldição primeira! Seu principal fetiche é o assassínio. Afia as lâminas do prazer despótico e primitivo. Seja vingança, desprezo, surto ou embriaguez, qualquer destas fontes é fértil e suas crias, as pragas da loucura, inoculam o veneno em mentes virtuosas e joviais. O coito criminoso é brutalmente planejado, a sede é incontrolável. Ou estas garras cravam-se sem piedade no pescoço de um cordeiro inocente, ou elas cortarão a garganta do próprio demônio. O sangue negro então violará o solo materno da natureza que o abortou sob o estigma misantrópico da besta rapineira.


"Tempo cúmplice, mãos hábeis - e ninguém vendo nada;
Tu, mistura fétida, destilada de ervas homicidas,
Infectadas por Hécate com tripla maldição, três vezes
seguidas,
Faz teu feitiço natural, tua mágica obscena,
Usurpa depressa esta vida ainda plena"

- William Shakespeare